À medida que a inteligência artificial continua transformando setores da economia e reconfigurando indústrias inteiras, instituições e indivíduos se veem obrigados a se preparar — e a se adaptar rapidamente — às mudanças que essas tecnologias parecem impor. No entanto, a pressão mais precisa não está apenas na forma como a IA altera o modo de trabalhar e viver, mas nos modelos de negócio e nas lógicas de investimento das empresas que a desenvolvem: a concentração de capital, as novas demandas por capacidade computacional, a corrida por talentos altamente especializados e a infraestrutura necessária para sustentar esse ecossistema. Na Grande Baía — ancorada por Guangzhou, Shenzhen e Hong Kong — essa dinâmica é particularmente evidente. Iniciativas governamentais vêm acelerando o crescimento do setor, com políticas e instrumentos de planejamento começando a traduzir um campo aparentemente intangível em forma física: revisões de zoneamento, destinação de terrenos e o surgimento de tipologias arquitetônicas voltadas à IA, de laboratórios de pesquisa a grandes centros de dados.
Dez anos atrás, o ArchDaily Brasil lançou a primeira edição do Prêmio Obra do Ano. Durante esta última década, centenas de projetos arquitetônicos têm sido reconhecidos como os melhores do mundo lusófono, graças à inteligência coletiva dos leitores do ArchDaily Brasil.
Hoje começa o Prêmio Obra do Ano 2026, e mais uma vez contamos com a comunidade do ArchDaily Brasil para escolher as melhores obras construídas em território de língua portuguesa. Durante as próximas três semanas, vocês serão os responsáveis por escolher os 15 finalistas e os 3 vencedores desta edição.
Participam todas as obras publicadas durante 2025, dos seguintes países: Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Macau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Nesta primeira fase, os leitores podem nomear uma obra por día para passar à etapa dos finalistas, que serão anunciados no dia 8 de abril.
Fundado em 2015 em Ahmedabad por Anand Sonecha, o SEAlab é um escritório moldado por uma abordagem lenta e contemplativa em relação ao lugar, à proporção e à participação. Reconhecido como um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, o estúdio constrói com materiais simples e técnicas locais, buscando criar ambientes que sejam experimentados tanto quanto vistos. Esse ethos tornou-se particularmente tangível em Gandhinagar, onde a Escola para Crianças Cegas e Deficientes Visuais não começou como uma instituição projetada especificamente para esse fim. A escola funcionava em um edifício de ensino fundamental já existente, com salas de aula sobrepostas a dormitórios e doze crianças dividindo um único quarto. O espaço era limitado, assim como as possibilidades de crescimento. O novo edifício acadêmico precisava ampliar a capacidade, melhorar as condições de permanência e favorecer uma maior autonomia dos estudantes.
Smiljan Radić Clarke, vencedor do Prêmio Pritzker 2026, é um arquiteto chileno contemporâneo conhecido por sua abordagem projetual experimental, com uma prática que equilibra o elementar com o íntimo, o monumental com o frágil. Ao longo de mais de três décadas, Radić desenvolveu uma arquitetura que resiste à repetição e à categorização estilística convencional, favorecendo, em vez disso, intervenções profundamente específicas ao local, materialmente sensíveis e culturalmente reflexivas.
Seu trabalho negocia permanência e impermanência, memória e imaginação, criando edifícios que tratam tanto da experiência e emoção humanas quanto da estrutura e forma. Em residências, instituições culturais e instalações temporárias, a arquitetura de Radić destaca a interação entre contexto, materiais e os gestos sutis que moldam a forma como os espaços são habitados e percebidos.
Courtesy of Tom Welsh for The Pritzker Architecture Prize
O arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke foi anunciado como o laureado do Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026, considerado uma das maiores honras no campo da arquitetura. O prêmio reconhece Radić por um corpo de trabalho que explora a arquitetura através da experimentação de materiais, percepção espacial e um cuidadoso engajamento com a paisagem e o contexto. Nascido em Santiago, Chile, onde continua a viver e trabalhar, Radić lidera o escritório Smiljan Radić Clarke, estabelecido em 1995. Ele se junta a uma lista ilustre de laureados anteriores, incluindo Liu Jiakun em 2025, Riken Yamamoto em 2024, David Chipperfield em 2023 e Diébédédo Francis Kéré em 2022.
A arquitetura de Radić opera dentro de um território onde a experiência fenomenológica do espaço precede a explicação. Seus edifícios frequentemente parecem silenciosos, elementares e resistentes a uma interpretação verbal fácil, encorajando os visitantes a experienciá-los através do movimento, atmosfera e percepção, em vez de por meio da expressão formal.
O Prêmio Pritzker de Arquitetura de 2026 foi concedido este ano ao arquiteto chileno de ascendência croata, Smiljan Radić Clarke. Nascido em Santiago, Chile, em 1965, sua prática evoca uma geografia de extremos, moldada pela tensão tectônica entre o peso imponente dos Andes e a instabilidade sísmica do território. Após graduar-se pela Pontifícia Universidade Católica do Chile e prosseguir seus estudos em estética em Veneza, Smiljan Radić Clarke estabeleceu sua base em Santiago. Desde então, desenvolveu uma das visões mais singulares da arquitetura contemporânea. Sua obra privilegia a intensidade do momento através de uma arquitetura frágil. Nela, o edifício opera como um refúgio temporário e tátil que coloca o espectador em um estado de incerteza estética, oscilando entre a ruína ancestral e o artefato de vanguarda.
A arquitetura costuma ser avaliada a partir de formas concluídas. No entanto, algumas práticas operam em outro registro — um em que o projeto se desenvolve por meio de relações, do tempo e do uso, e não a partir de um resultado único e definitivo. Para a CatalyticAction, a participação não é uma atividade social paralela, mas o próprio meio pelo qual os espaços são concebidos, construídos e sustentados ao longo do tempo.
Com atuação entre Beirute e Londres, o escritório desenvolveu projetos no Oriente Médio e na Europa, criando espaços públicos, escolas, playgrounds e infraestruturas urbanas cotidianas por meio de colaborações de longo prazo com comunidades locais. Fundamentada em pesquisa participativa e tomada de decisão coletiva, essa abordagem foi reconhecida pelo ArchDaily Next Practices Awards 2025, destacando um modo de atuação em que a arquitetura é entendida como um processo compartilhado e em constante transformação, e não como um objeto fixo. Nesse contexto, o valor arquitetônico é medido pela continuidade, pelo uso e pelo senso de pertencimento coletivo, mais do que pela forma em si.
Um edifício ainda em processo de ajuste, reparo e debate é declarado Patrimônio Mundial. Outro, igualmente influente, precisa sobreviver por cinco séculos antes que alguém considere protegê-lo. Isso não é uma anomalia no sistema de preservação patrimonial; é o próprio sistema. Em diferentes partes do mundo, a arquitetura não envelhece no mesmo ritmo porque o próprio tempo não é neutro. Ele é cultural, político e profundamente desigual. Aquilo que chamamos de “patrimônio” não é simplesmente arquitetura antiga; é arquitetura que alcançou o momento certo em um determinado lugar.
Durante décadas, o patrimônio foi mais facilmente reconhecido a partir da rua. Protegemos fachadas, linhas do horizonte e monumentos porque são visíveis, estáveis e facilmente identificáveis como bens culturais. No entanto, a maior parte do que lembramos sobre viver está ligada a como comemos juntos, nos recolhemos, discutimos, cuidamos e descansamos — ações que acontecem longe do olhar público. Elas se desenrolam dentro dos ambientes. À medida que as plantas abertas silenciosamente dão lugar a limiares, corredores e cômodos mais definidos, surge uma questão mais profunda: e se a memória cultural sobreviver não no que a arquitetura exibe, mas na forma como é vivida?
O patrimônio arquitetônico é frequentemente descrito como aquilo que sobrevive ao tempo. No entanto, a sobrevivência, por si só, não explica por que certos edifícios são preservados enquanto outros desaparecem. Muitas obras hoje protegidas como patrimônio cultural foram, no passado, criticadas, contestadas ou abertamente rejeitadas; foram acusadas de equívocos sociais, fragilidades materiais ou excessos simbólicos. Com o passar do tempo, porém, essas mesmas limitações tornaram-se centrais para seu significado, à medida que o patrimônio se revela como um processo lento e instável de interpretação.
A arquitetura contemporânea opera sob intensa vigilância, pressionada pela responsabilidade ambiental, pela equidade social, pela volatilidade econômica e pela aceleração das transformações tecnológicas. Espera-se que os edifícios desempenhem papéis éticos, eficientes e simbólicos — muitas vezes simultaneamente. Como resultado, o fracasso arquitetônico deixa de ser exceção e passa a configurar uma condição recorrente. Os projetos envelhecem mais rapidamente — material, funcional e simbolicamente —, os materiais revelam suas limitações com maior antecedência, e estratégias urbanas entram em descompasso com realidades políticas, sociais e ambientais em constante mutação.
Geralmente, são os profissionais especialistas aqueles que tem o poder da decisão, sejam eles historiadores, museólogos, arquitetos, geógrafos. Mas com base em que essas decisões são tomadas? Caberia a complexidade da história em um checklist? Ou, ainda mais elementar, em qual versão da história estariam sendo baseadas essas decisões?
As cidades estão aquecendo a um ritmo aproximadamente duas vezes maior que a média global, uma tendência acelerada pela urbanização rápida. Enquanto o aumento das temperaturas está transformando o cotidiano em todo o mundo, algumas cidades e bairros — muitas vezes os mais vulneráveis e com menos recursos — estão esquentando mais do que outros. A razão está no próprio ambiente urbano. A infraestrutura construída, como ruas, edifícios, calçadas e espaços públicos, determina como o calor se move pela cidade, onde ele se acumula e por quanto tempo permanece retido. Independentemente da zona climática ou da localização geográfica, a sombra continua sendo a forma mais eficaz e imediata de resfriar os pedestres e aliviar o ambiente construído.
Pode a arquitetura ser construída a partir da comida? Entre o fogo que aquece, os cheiros que se espalham e os corpos que se reúnem em torno da mesa, a aparente banalidade dos atos de cozinhar e comer revela-se como uma dança coreografada de apropriação e pertencimento espacial. São gestos que organizam rotinas, produzem vínculos e transformam o ambiente construído em lugar vivido. A cozinha — doméstica, comunitária ou urbana — deixa, assim, de ser apenas um espaço funcional para afirmar-se como território de encontro.
Os breakfast nooks, oucantinhos do café da manhã, surgiram no início do século XX como resposta ao aumento da densidade doméstica e às transformações na vida cotidiana. Enraizados no movimento Arts and Crafts norte-americano e difundidos nas casas tipo bangalô das décadas de 1910 e 1920, eles evoluíram das mais formais salas de café da manhã vitorianas para espaços compactos e embutidos, integrados à cozinha. À medida que as casas se tornaram menores e mais econômicas, arquitetos e fabricantes de marcenaria passaram a usar bancos e mesas fixas para ocupar cantos, nichos e janelas em bay window que, de outra forma, seriam áreas pouco aproveitadas. Esses recantos iluminados ofereciam uma forma acessível de concentrar atividades diárias sem abrir mão do conforto e da clareza espacial.
Os espaços de lazer são, muitas vezes, onde diferentes gerações se cruzam. Sem programas formais ou papéis definidos, eles permitem que as pessoas circulem, façam pausas e permaneçam juntas — cada uma se relacionando com o espaço à sua maneira. Em um ambiente construído cada vez mais moldado pela especialização e pela separação, esses territórios compartilhados tornaram-se mais raros, o que dá à arquitetura do lazer uma relevância renovada.
Os debates sobre o espaço público têm apontado repetidamente o valor da abertura e da flexibilidade para sustentar a vida coletiva. Ao refletir sobre como as pessoas leem, habitam e transformam os espaços, o arquiteto Herman Hertzberger fala da arquitetura não como um conjunto de instruções, mas como um campo de possibilidades — algo que convida à interpretação em vez de prescrever comportamentos. Como ele afirma: “o que deveríamos fazer na arquitetura é algo como competência, possibilidade — algo que as pessoas possam lidar livremente à sua maneira”. Em vez de tentar criar interação, a arquitetura molda as condições que tornam o estar-junto possível.
Bazar em Hyderabad, Índia. Foto de Kanishq Kancharla no Unsplash.
A arquitetura costuma ser representada como um objeto estável: um edifício capturado em um momento de clareza visual, isolado das contingências ao redor. Plantas, cortes e fotografias prometem legibilidade ao suspender o tempo. No entanto, muitos dos espaços públicos mais duradouros do mundo resistem completamente a esse modo de representação. Eles não foram feitos para serem compreendidos de imediato, nem revelam sua lógica apenas pela forma. Sua inteligência espacial emerge aos poucos — pela repetição, pela ocupação e pela duração.
O bazar se insere com firmeza nessa categoria. Ele não pode ser entendido por um único desenho ou por uma elevação finalizada. Sua organização não é fixa, é ensaiada diariamente. O que o sustenta não é apenas a composição arquitetônica, mas o tempo compartilhado, a memória coletiva e padrões de uso construídos ao longo dos anos. A convivência no bazar não nasce de decisões formais de projeto; ela é produzida por encontros repetidos, proximidades negociadas e familiaridade social acumulada no tempo.
Refletindo sobre a cidade moderna, Walter Benjamin descreveu o flâneur, uma figura que caminha sem destino definido, atento aos detalhes, aos encontros fortuitos e às narrativas que emergem do espaço urbano. Essa forma de estar na cidade, moldada pela observação e pela abertura ao inesperado, há muito tempo entra em tensão com os ideais racionalistas e funcionalistas que passaram a orientar o urbanismo ao longo do século XX. Ruas desenhadas prioritariamente para a eficiência e o fluxo raramente deixam espaço para desvios, pausas ou para a convivência de diferentes ritmos de vida.
Jane Jacobs também foi uma das vozes que questionaram essa lógica predominantemente racionalista, ao defender que ruas verdadeiramente vibrantes são aquelas capazes de sustentar a diversidade da vida cotidiana, suas trocas informais e as formas de cuidado e vigilância natural que delas emergem. O que esses autores compartilham é uma percepção fundamental: as ruas não são apenas infraestruturas de circulação, mas ecossistemas sociais, moldados pelas relações, usos e encontros que nelas acontecem.
Ao contrário da maioria dos esportes populares, a origem do basquete tem um ano e um criador precisos: foi inventado em 1891 nos Estados Unidos pelo instrutor de educação física canadense James Naismith como um esporte indoor para atletas da Springfield College durante o inverno, após o fim da temporada de futebol americano. O esporte rapidamente se expandiu além das fronteiras do país, sendo incluído nos Jogos Olímpicos de 1936 e alcançando popularidade internacional após a Segunda Guerra Mundial. À medida que o basquete se tornou mais difundido, ele também deixou o ambiente controlado dos ginásios e começou a ocupar uma ampla variedade de locais: playgrounds, praças públicas, pátios de escolas, calçadas e quintais se tornaram quadras informais para jogar e para a vida comunitária, reforçando o papel da atividade física como catalisadora da interação social e da regeneração dos bairros.
Building Frame of the House. Image Courtesy of IGArchitects
Fundado em 2020 por Masato Igarashi, IGArchitects é um escritório de arquitetura com sede em Tóquio e Saitama, Japão. O estúdio, um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, explora uma arquitetura duradoura por meio de um trabalho cuidadoso, mas assertivo, de estrutura, escala e materialidade. Antes de estabelecer seu próprio escritório, Igarashi trabalhou na renomada empresa Shimizu Sekkei, bem como no Suppose Design Office, adquirindo experiência em projetos que vão desde grandes empreendimentos a projetos de pequena escala, mais conceituais. Essa ampla experiência continua a direcionar o foco atual do IGArchitects em arquitetura residencial e comercial em todo o Japão.
Como o projeto "Espaços de Paz" está transformando os espaços comunitários na Venezuela Pinto Salinas -- Oficina Lúdica + PKMN. Imagem Cortesia de PICO Estudio
Na América Latina, os encontros não nascem necessariamente de grandes gestos arquitetônicos ou de planos urbanos monumentais. Eles emergem do entre, do espaço intermediário: o pátio, a varanda, a calçada, o corredor compartilhado. Esses espaços, muitas vezes considerados residuais ou informais pela disciplina tradicional, são precisamente aqueles onde o cotidiano constrói vínculos.
Dessa cultura latino-americana surge uma lógica espacial na qual a vida cotidiana se organiza de maneira relacional e extensiva. Práticas como sentar à porta de casa, ocupar a calçada, brincar na rua, produzem uma cidade vivida para além dos limites formais do projeto.
A criação de um lugar não é, em princípio, algo complexo; basta que as pessoas passem a se reunir regularmente em um mesmo local, com um propósito ou atividade comuns, para que um espaço se constitua. Isso não exclui o fato de que um elemento físico precisa acompanhar esse encontro para que o espaço se torne acolhedor, funcional e convidativo. Essa ideia de um espaço que emerge da intenção pode ser observada de forma muito clara em uma das funções mais antigas da humanidade: os mercados de alimentos ou de produtos agrícolas.
Para que um mercado exista, o elemento arquitetônico pode ser tão simples quanto uma cobertura leve, capaz de abrigar os comerciantes e estabelecer um limite implícito para o lugar. Pode também assumir formas mais engenhosas, como a reutilização adaptativa de um edifício ou de um sítio existente, ajustado a novas necessidades. Em outros casos, trata-se de uma estrutura temporária e leve, montada para eventos ou demandas específicas e, depois, desmontada para ser reutilizada em outro local ou com outra finalidade.
Courtesy of The Royal Commission for AlUla | Rana Haddad + Pascal Hachem Reveries, Desert X AlUla 2024
A arquitetura e o design entram em 2026 em um momento de experimentação renovada, reflexão ambiental urgente e ampliação do diálogo global sobre o ambiente construído. À medida que as cidades enfrentam pressões relacionadas à adaptação climática, às transformações demográficas e às mudanças tecnológicas, o calendário internacional deste ano oferece um retrato de como a disciplina vem respondendo a esses desafios — de forma criativa, crítica e coletiva. Entre bienais consolidadas e plataformas recém-criadas, os eventos de 2026 evidenciam o papel da arquitetura tanto como registro das transformações do nosso tempo quanto como agente ativo na construção de futuros mais equitativos e sustentáveis.
Todos os anos trazem novas ideias, projetos e deslocamentos na cultura arquitetônica, mas também marcam a perda de vozes que moldaram a disciplina ao longo de décadas. A arquitetura avança, mas também se constrói por meio da ausência. Quando desaparecem figuras que ajudaram a formular sua linguagem e suas ambições, o que fica vai além de obras concluídas ou textos influentes. A ausência se torna um limiar — um momento em que a disciplina pausa para compreender o que permanece, o que se transforma e o que continua a nos orientar. Essas perdas nos lembram que a arquitetura é uma construção longa e coletiva, sustentada não apenas por quem atua no presente, mas também por aqueles cujas visões seguem moldando a maneira como pensamos cidades e paisagens.
Os arquitetos e pensadores que perdemos em 2025 vieram de contextos muito distintos, mas as questões que atravessaram seus trabalhos frequentemente se cruzam. Alguns abordaram a cidade a partir da identidade, do simbolismo e da continuidade histórica, buscando ancorar o ambiente construído na memória cultural. Outros a interpretaram por meio da precisão técnica, dos sistemas ecológicos ou da experimentação radical, expandindo os limites do que a arquitetura pode ser e de como pode ser vivenciada. Suas obras atravessam contextos tão diversos quanto a Grã-Bretanha do pós-guerra, a urbanização acelerada da China, as vanguardas centro-europeias e as instituições culturais em transformação de Berlim e Nova York. Juntos, compõem um espectro de respostas que definiu — e continua a definir — a cultura arquitetônica dos últimos cinquenta anos, revelando a multiplicidade de formas pelas quais a arquitetura pode se relacionar com a sociedade, a tecnologia e o meio ambiente.
Em um cenário global marcado por transformações aceleradas, 2025 consolidou-se como um ano decisivo para a arquitetura — não apenas pelos grandes eventos que mobilizaram o circuito internacional mas, sobretudo pelas vozes que neles se destacaram. Da Bienal de Arquitetura de Veneza à Expo Osaka, os pavilhões e instalações dos países do Sul Global deixaram de operar como meros gestos expositivos para se afirmar como territórios de memória, resistência e imaginação, articulando narrativas que ampliam os horizontes do debate arquitetônico contemporâneo.
Neles, tradição e futuro caminham lado a lado: materiais ancestrais reaparecem reinventados, feridas históricas ganham forma sensível e a urgência social se traduz em propostas que desafiam modos estabelecidos de construir e de habitar o mundo.