“A Arquitetura não muda nada. Está sempre do lado dos mais ricos. O importante é acreditar que a vida pode ser melhor.” -- Oscar Niemeyer
Não importa o quanto tentemos negar, Niemeyer apresenta um argumento válido aqui. Arquitetura está quase sempre "do lado dos mais ricos"; a profissão, do modo como existe há mais de um século, raramente muda algo; e mesmo assim pode tornar a vida melhor, mesmo que apenas para alguns poucos.
Mas e se a arquitetura pudesse tornar a vida melhor para a maioria? E se arquitetura de qualidade, que apresente melhorias para a vida, fosse "de código aberto" e disponível para download na internet... de graça?
Bem, graças a Paperhouses isso já existe.
Embora outros sites já tenham oferecido plantas e desenhos para download - o conhecido Wikihouse - a ideia por trás do Paperhouse, fundado por Joana Pacheco, se baseia na colaboração: arquitetos de qualidade disponibilizam gratuitamente arquitetura de qualidade para profissionais e leigos, que podem então baixar os desenhos e adaptá-los, ajustado-os em função do programa, área, condições de conforto, etc. Neste processo, nasce uma conversa entre clientes, construtores e arquitetos.
Respeitados escritórios de arquitetura, como Tatiana Bilbao Architects, EMBT, e architecturespossibles já aceitaram o desafio, cada um oferecendo um projeto - de forma gratuita - para o público do Paperhouse.
Neste ponte você deve estar pensando: quem em juízo perfeito ofereceria gratuitamente um projeto de sua autoria para ser alterado, sem ganhar nenhum dinheiro com isso?
Segundo Pacheco, muito mais gente que se pode imaginar. Em uma entrevista comigo, Pacheco descreveu os arquitetos como grupos de dois campos ideológicos distintos.
Se um arquiteto enxerga a arquitetura como arte, então ao fazer um modelo - apenas para seus braços e pernas serem dissecados - eles relutam. Estes arquitetos tendem a pensar em seu trabalho como uma obra finalizada e perfeita para um programa e terreno específico - uma noção que é na realidade completamente alheia ao tempo.
Mas outro grupo de arquitetos abraçam esta ideia de participação das pessoas, de colaboração entre usuário e arquiteto que pode trazer resultados diferentes e interessantes. Estes arquitetos percebem que a arquitetura nunca está completa [tampouco é realmente deles], a vida passar por ela, os usuários mudam - estamos apenas permitindo que isso aconteça mais rápido.
E a abordagem democrática da Paperhouses não podeia ter surgido em melhor momento. Como sugere Pacheco, estamos em um momento de grande mudança na comunidade da arquitetura: um momento em que o estrelismo está desaparecendo e uma nova geração de arquitetos está cada vez mais abraçando a ideia de uma arquitetura para todos. Isto, combinado com as crises econômicas (e o estouro da bolha imobiliária), cria uma real necessidade de habitações acessíveis e de qualidade, tornando este campo pronto para uma renovação radical.
Existem, evidentemente, arquiteturas que não se prestam a ser "de código aberto"; há projetos que são simplesmente únicos, Pacheco admite. Contudo, ela argumenta: se a arquitetura pretende realmente ser pública, então o "código aberto" é o único modo de garantir sua universalidade. Como ela aponta em um manifesto:
Meu objetivo é colocar a arquitetura ao alcance, isto significa destituir do design de qualidade sua etiqueta de preço e sua aura proibida, e envolver as pessoas em seus próprios projetos. Acesso universal livre é o único processo que simultaneamente torna o conhecimento acessível, democrático e passível de ser aplicado em uma diversidade de produção.
Veja os projetos na Paperhouses:
Panorama Architects
Tatiana Bilbao Architects