A relação entre a arquitetura e o meio ambiente é multifacetada e envolve uma interação dinâmica entre os espaços construídos e o contexto natural circundante, moldando a forma como os edifícios e as cidades funcionam, impactam os ecossistemas e influenciam no bem-estar dos habitantes.
São muitos os aspectos que relacionam a arquitetura e o meio ambiente, desde os mais práticos como a utilização de materiais naturais e fontes de energia renováveis, até os mais abrangentes como a incorporação e valorização da cultura local. Dentro dessa ampla gama de possibilidades, selecionamos a seguir cinco entrevistas que apresentam diferentes abordagens sobre este tema e fomentam reflexões fundamentais para o contexto arquitetônico contemporâneo.
Cortesia de Programa Rolex de Mestres e Discípulos
Nascida no Brasil e formada no Paraguai, Gloria Cabral é uma arquiteta que aprendeu cedo que casa pode ser muitos lugares — ou nenhum. Com uma atuação profissional balizada pela compreensão ampla da geografia, cultura e condições sociais de onde projeta, tem deixado sua marca em edifícios e instalações artísticas construídas em diversas localidades, de Assunção à Veneza.
Ao seu interesse pelas especificidades dos lugares onde atua, soma-se a atenção com a economia de recursos e reuso de materiais — temática em voga atualmente, mas cuja bandeira Gloria levanta há mais de quinze anos. Tivemos a oportunidade de conversar com a arquiteta sobre suas experiências no Paraguai e Brasil, algumas de suas obras com tijolo reciclado e seu entendimento de arquitetura e sustentabilidade.
Desde 1998, a Bienal de Arquitetura de Veneza tem se baseado em três pilares: os pavilhões nacionais (cada nação escolhe seus próprios curadores e projetos), a exposição internacional (organizada pelo curador da Bienal) e os eventos paralelos (aprovados pelo curador).
Na edição de 2023, a exposição internacional de arquitetura, que tem curadoria de Lesley Lokko, é estruturada em seis partes e conta com 89 participantes. Destes, mais da metade são da África ou da diáspora africana, com equilíbrio de gênero e uma média de idade de 43 anos para os participantes.
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Mesmo sem falar o mesmo idioma, Zumthor e Cabral descobriram que ambos gostam de iniciar um projeto com conversas colaborativas. Cortesia de Gloria Cabral e Peter Zumthor/Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative
Gloria Cabral nasceu no coração de São Paulo, cresceu no Paraguai - onde estudou no Colégio Experimental Paraguai Brasil, projetado por Affonso Eduardo Reidy - e, desde então, segue como uma arquiteta que dispensa as fronteiras para exercer sua prática. Somando diversas honrarias internacionais e atualmente baseada na Guarda do Embaú, Santa Catarina, ela tem buscado por produções horizontais que demonstram a força do coletivo na formulação do ambiente construído.
Site Museum of Paracas Culture / Barclay & Crousse. Courtesy of Barclay & Crousse. Image
Duas arquitetas sul-americanas foram selecionadas como vencedoras dos prêmios The Architectural Review e The Architects 'Journal's 2018 Women in Architecture. O primeiro prêmio deste ano, Arquiteta do Ano, foi entregue à peruana Sandra Barclay, enquanto a arquiteta paraguaia Gloria Cabral foi selecionada como vencedora do Prêmio Moira Gemmill para Arquitetura Emergente, sendo ambas reconhecidas pelo júri pelo seu domínio de materiais.
Utilizando cimento e tijolos de lama crua, os arquitetos Solanito Benitez, Solano Benitez, Gloria Cabral, Maria Rovea e Ricardo Sargiotti construíram um muro que pôde ser erguido graças ao trabalho conjunto de ambos os materiais. Após a cura do cimento, os tijolos foram desmanchados com água, deixando vazios no muro como uma espécie de negativo dos blocos.
A intervenção fez parte da mostra de arte MUVA em Unquillo, Córdoba, Argentina, que aconteceu entre os dias 11 de abril e 3 de maio de 2014.
Os tijolos são o elemento icônico do estúdio de Solano Benítez. Um material ancestral, forjado pelo homem através de uma técnica milenar de modelagem e cozimento. Os tijolos são versáteis, baratos e fáceis de fabricar, permitindo que também em zonas marginalizadas do mundo as pessoas possam se dar ao luxo de construir suas moradias com este material. Benítez sente a poesia do tijolo e vem experimentando com sua versatilidade, ao limite de confiar unicamente neles como material primeiro de construção. [1]
A mostra, desenvolvida por Solano Benítez, Gloria Cabral e Solanito Benítez, não apenas impressionou por sua genialidade construtiva, mas também recebeu o Leão de Ouro de Melhor Participação na Exposição Internacional Reporting from the Front.
Cabral examina o modelo da Capela do Chá. Cortesia de Gloria Cabral e Peter Zumthor/Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative
Em maio do ano passado, a iniciativa Rolex Mentors & Protégés anunciou uma surpreendente parceria: a arquiteta paraguaia Gloria Cabral foi selecionada para passar um ano trabalhando ao lado do famoso arquiteto suíço Peter Zumthor. As diferenças entre ambos - do idioma que falam ao tempo de suas carreiras - eram óbvias desde o início. Mas, como explorado neste artigo de Paul Clemence, originalmente publicado na Metropolis Magazine como "Intuitive Connection" , ao longo do último ano os dois arquitetos vêm descobrindo que as coisas que têm em comum são muito mais profundas.
Esta é uma dupla improvável. Ele é um arquiteto bem estabelecido com uma longa carreira que trabalha em uma pequena cidade localizada no meio das montanhas do cantão Graubünden na Suíça; ela está no início de uma promissora carreira em Assunção, capital e maior cidade do Paraguai. Eles não compartilham nem um idioma em comum, no entanto, se conectam através de algo mais forte que a palavra falada: um senso intuitivo de espaço - e sua ética de trabalho.
Peter Zumthor com sua "protégée" Gloria Cabral. Cortesia de Rolex Mentor and Protege Arts Initiative
Peter Zumthor escolheu ser o mentor da arquiteta paraguaia Gloria Cabral como parte da Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative. Cabral, sócia do escritório Gabinete de Arquitectura, de Assunção, passará um ano colaborando com o arquiteto suíço, que dedicará sua experiência num esforço de aprender, criar e crescer juntamente com a jovem talento.
Descrevendo a obra de Cabral, Zumthor comentou: “No trabalho e atitude de Glória sinto um forte interesse pela experiência física da arquitetura, o que torna estimulante para mim colaborar com ela."