Ao definir a sexualidade como uma dentre as várias tecnologias sexuais, Michel Foucault expandiu nossa compreensão sobre o que se entende por sexo. Desta maneira, não só o artefato construído, com seus diversos mecanismos espaciais de produção de corporeidades, mas também o próprio pensamento, em forma de discurso disciplinar, modula a relação entre a arquitetura e o corpo. E o inverso também se verifica, com a incidência do gênero e da sexualidade sobre a teoria arquitetônica. De uma forma ou de outra, vê-se como esse campo de relações é rico e capaz de multiplicar nosso conhecimento acerca da arquitetura e dos próprios meios de constituição e entendimento do corpo generificado e sexuado.
No artigo desta semana da Metropolis Magazine, Kelly Beamon explora “a simbologia do telhado em duas águas”, analisando como muitos arquitetos contemporâneos têm se apropriado desta tipologia fundamental para ressignificar a sua própria essência. De acordo com Beamon, o telhado em duas águas é uma das mais tradicionais soluções arquitetônicas de cobertura, utilizada amplamente tanto em regiões de clima frio quando temperado, a qual está composta por dois planos inclinados e opostos os quais se encontram para formar a cumeeira. Como uma das soluções construtivas mais emblemáticas na arquitetura residencial dos EUA, este artigo procura analisar como este tradicional recurso tem sido reinventado ao longo das últimas décadas.
No momento em que escrevo este artigo, o Brasil está na mais grave crise humanitária de sua história — não apenas uma “crise sanitária”, como se costuma comentar. A pandemia da COVID-19 matou, até 30 de abril de 2021, 411.854 de pessoas e, apenas nos últimos dias, a média móvel de mortes começou novamente a arrefecer — tendo chegado ao máximo de 3.125 em abril.
Epidemiologistas, microbiologistas, infectologistas etc. observam que o impacto da pandemia nas cidades brasileiras é fortemente idiossincrático: cada qual tem condições peculiares a considerar, antes de podermos ousar generalizações. Por outro lado, estima-se uma alta subnotificação (até um décimo dos casos reais), que, inclusive, varia entre cidades. Contudo, feitas as reservas, o que podemos observar no quadro geral?
Arquitetura e automação são dois conceitos que na era moderna de projeto e avanços tecnológicos andam de mãos dadas - ou não? Por um lado, há um leve temor de que "robôs substituam os arquitetos", tornando a profissão mais automatizada e menos criativa. Por outro lado, a tecnologia tornou a prática da arquitetura mais eficiente, em termos de processo e custo. Até onde a tecnologia nos levará? Nosso trabalho será substituído pela tecnologia? A resposta curta é, provavelmente não.
No artigo do Commom Edge desta semana, Duo Dickinson faz uma análise de seu percurso como arquiteto, das salas de aula à prática profissional e finalmente, a volta à escola de arquitetura como professor. Explorando a fundo as transformações na prática da arquitetura ao longo destes anos, Dickinson afirma que “ninguém mais acredita que as nossas escolas de arquitetura estejam hoje preparadas para educar os profissionais que a arquitetura precisará daqui a dez anos”. Nesta jornada, o autor explica como o ensino da arquitetura evoluiu ao longo do tempo, apontando possíveis direções para garantir que o ensino da arquitetura permanece relevante no futuro.
O Havaí se tornou um lugar que define o paraíso. De praias imaculadas e um clima quente a paisagens naturais e vulcões ativos, as ilhas são o lar de paisagens e cultura incríveis. Com estilos de construção indígenas e modernos, a arquitetura do estado está intimamente ligada ao meio ambiente. Reinterpretando técnicas e tradições de construção histórica, a arquitetura havaiana contemporânea equilibra o desejo de honrar o passado enquanto celebra novas experiências e a cultura moderna. Isso levou à formação de espaços incríveis para habitar.
Talvez um dos mais emblemáticos espaços relacionados à profissão do arquiteto, o canteiro de obras é onde se materializa o projeto, onde a técnica é posta em prática, pondo à prova o projeto e o projetista. Amplamente praticado como espaço de trabalho alienante, o canteiro de obras já foi espaço de aprendizado de ofícios, de repassar conhecimento. Hoje, com a evolução das técnicas construtivas, processos milenares correm o risco de cair no esquecimento. É dentro deste contexto que o Castelo de Guédelon, localizado próximo ao vilarejo de Treigny, na França, está inserido.
Spot on a Foster+Partners construction site. Image Courtesy of Foster+Partners
Há anos, o setor da construção civil vem enfrentando uma escassez de mão de obra especializada, algo que tem impulsionado o desenvolvimento de novas tecnologias e sistemas automatizados de construção. A recente crise sanitária apenas exacerbou essa tendência, fazendo com que muitas empresas de automação—que antes se dedicavam principalmente à fabricação de automóveis—voltassem sua atenção à indústria da construção civil. Neste contexto, espera-se que a automatização dos meios de produção na engenharia e na arquitetura cresça até um 30% ao longo dos próximos anos. No artigo a seguir procuramos explorar as atuais capacidades desta tecnologia e as futuras possibilidades que ela ainda poderá trazer para os processos de construção, além de como tem sido integrada na atual prática e as possíveis mudanças que ela poderá nos trazer no futuro.
Em meio à paisagem montanhosa de Blumenau, cidade localizada no estado de Santa Catarina, na região Sul do Brasil, encontra-se uma pérola da arquitetura moderna religiosa assinada por Gottfried Böhm, que faleceu recentemente com 101 anos: a Igreja São Paulo Apóstolo, construída entre os anos de 1953 e 1963.
Treze anos atrás, o então prefeito de Maceió, Cicero Almeida, inaugurou duas grandes obras na cidade, os viadutos Washington Luiz e João Lyra. A expectativa, na época, era de que ambos trouxessem uma possível solução para os problemas de mobilidade urbana na capital a partir de uma maior fluidez do tráfego na região. Porém, com o passar do tempo, o que se pôde observar foi um aumento da frota de veículos na cidade que trouxe de volta o fantasma dos congestionamentos nos horários de pico, e as obras que prometiam solucionar a mobilidade da cidade já não eram mais suficientes.
https://www.archdaily.com.br/br/963959/parem-de-construir-viadutos-para-resolver-problemas-de-mobilidadeRuan Victor Amaral
É inquestionável que os ambientes influenciam diretamente no comportamento e nas emoções de seus usuários. Estima-se que os seres humanos passem cerca de 90% de seu tempo de vida em espaços internos, por isso é tão importante que eles favoreçam positivamente nossa capacidade cerebral. Um termo específico para relacionar os estímulos que o cérebro recebe dependendo do ambiente em que está é neuroarquitetura. Diversos estudos têm sido publicados sobre esse tema, a maioria sobre o impacto em ambientes de trabalho. Este artigo pretende abordar sobre esse conceito, enfatizando sua importância no projeto de espaços destinados a crianças na primeira infância.
Alguns pesquisadores definem que o início do Antropoceno se deu com a Revolução Industrial, outros com a explosão da bomba nuclear ou até no advento da agricultura. Isso ainda não é um consenso científico. Mas a noção de que as atividades humanas vêm gerando alterações com repercussão planetária, seja na temperatura da Terra, nos biomas e ecossistemas, é algo cada vez mais disseminado. O antropoceno seria uma nova era geológica marcada pelo impacto da ação humana no planeta Terra. Isso é particularmente perturbador se considerarmos que se toda a história da Terra fosse condensada em 24 horas, os humanos só apareceriam nos últimos 20 segundos. Seja na extração massiva de recursos naturais, liberação de carbono dos veículos e indústrias, é sabido que boa parte da culpa é da construção civil, sobretudo na produção de resíduos sólidos, por conta de desperdícios e demolições. No Brasil, por exemplo, os Resíduos da Construção Civil podem representar entre 50% e 70% da massa dos resíduos sólidos urbanos [1]. Muitos acabarão descartados irregularmente ou utilizados como aterros soterrados por tempo indeterminado.
Nos últimos anos, assistimos a um maior reconhecimento do esforço coletivo que é a arquitetura e a crescente valorização das diferentes profissões que participam no processo de projeto. Dentro de cada edifício extraordinário, a engenharia estrutural desempenha um papel essencial na materialização da ideia arquitetônica. O artigo destaca as contribuições passadas e presentes da engenharia para o ambiente construído, personalidades que ficaram à sombra dos arquitetos apresentando suas intenções de projeto e a colaboração entre engenheiros e arquitetos hoje.
À primeira vista, construir uma piscina na orla costeira pode parecer uma decisão pouco coerente. Afinal, por que alguém escolheria se banhar ali com a imensidão do mar ou do rio a poucos passos de distância? No entanto, apesar da nossa primeira impressão, em muitos casos essas obras acabam se tornando infraestruturas realmente significativas para pessoas com mobilidade reduzida, crianças ou outras pessoas para as quais o mar ou o rio pode trazer algum tipo de insegurança. Nesta perspetiva, as piscinas costeiras apresentam-se como dispositivos de conexão entre as pessoas e a paisagem, possibilitando a utilização dos territórios marítimos e fluviais para que mais pessoas possam desfrutar da água com segurança.
Países com clima predominantemente tropical ou equatorial, como o Brasil, permitem que as casas possuam uma relação mais fluida entre interior e exterior, não havendo necessidade, em grande parte do território nacional, de soluções arquitetônicas que limitem a conexão entre estes espaços para manter o ambiente aquecido. Em locais marcados por temperaturas mais quentes, soluções que buscam a integração entre espaços internos e externos podem ser bem-vindas, pois promovem maior ventilação e iluminação naturais para o ambiente residencial, além do seu característico apelo estético.
Um projeto de escala relevante, raramente é obra de um único homem. Desde os primórdios levantamentos de celeiros em aldeias, realizados nos séculos 18 e 19 até a força-tarefa padrão hoje em dia, uma edificação requer muitas mãos a bordo, trazendo diferentes contribuições e conhecimentos para moldá-la e executá-la.
Dentre os escritórios mais amplamente difundidos e consolidados no mundo, o OMA - Office for Metropolitan Architecture, fundado na década de 1970 por Rem Koolhaas, Elia Zenghelis, Madelon Vriesendorp e Zoe Zenghelis, definitivamente faz parte do panteão dos mais famosos. Fato curioso é que, embora receba grandes comissões e já tenha construído obras emblemáticas em diversos países, o escritório é frequentemente associado a uma abordagem menos centrada no projeto arquitetônico, extrapolando os limites rígidos do campo disciplinar e englobando outras áreas de atuação.
No clássico filme de Jacques Tati, Mon Oncle (1958), a casa, como materialização cenográfica da “máquina de morar”, é a protagonista. Seus aparatos tecnológicos, por vezes indomáveis, são os que ditam as regras. A proprietária da casa, Madame Arpel, é uma tecnocentrista típica, maravilhada com toda a tecnologia que a cerca acreditando que ela seja a solução para todos seus problemas diários. No lado oposto de Arpel está seu irmão, Mr. Hulot, que chega para uma visita e se desentende com toda essa inovação. Ao longo da sua estadia, conhecemos uma casa que se mostra muito complexa e ao mesmo tempo não permite o controle do usuário.
Pouco conhecida pela maioria das pessoas, o Cáucaso do Norte é uma região extremamente complexa e remota, composta por uma enorme variedade de diferentes etnias, línguas, religiões e, conseqüentemente, arquiteturas. Em sua herança construída encontramos desde edifícios da era czarista a mesquitas, assim como mosaicos tradicionais da era soviética, monumentos e edifícios de estilo brutalista. Cenário de eventos polêmicos e disputas históricas, o norte do Cáucaso é um território culturalmente heterogêneo e está localizado na fronteira entre a Europa e a Ásia, entre a antiga União Soviética e o Oriente Médio, entre a fé Cristã e o mundo Islâmico. Ilustrado com fotografias de Gianluca Pardelli, Thomas Paul Mayer e Nikolai Vassiliev, este artigo é um convite à descoberta da historia e da arquitetura desta peculiar região do planeta: o Ciscáucaso, ou Cáucaso Norte.
“Desde a Revolução Industrial, linhas de montagem ditaram um mundo feito de partes enquadrando a imaginação de arquitetos e designers que foram treinados a pensar nos seus projetos como resultados de pedaços com funções distintas”, essa foi uma frase proferida pela arquiteta israelense e pesquisadora do MIT Media Lab, Neri Oxman em sua palestra do TED intitulada “Projetando na intersecção entre tecnologia e biologia”.
Neri reforça que a maneira tradicional de se construir é feita do mesmo modo há milênios e precisa ser reinventada. De fato, fomos ensinados a construir edifícios e cidades de forma racionalizada, em partes, sem pensar no todo. Até hoje essa lógica ainda é ensinada nas universidades.
Paul Rudolph, Rudolph Apartment at 23 Beekman Place, New York (1977-1997). Corte Perspectivado, 1997. Desenho digitalizado | 4732 x 3416 px. O Arquivo Paul Rudolph, Biblioteca do Congresso, Divisão de Impressão e Fotografia, LC-USZ62-123771. O corte mostra a complexidade do espaço que Timothy Rohan descreve como exemplar da abordagem de Rudolph ao domínio privado.
Um número crescente de teóricos e profissionais está discutindo o impacto de gênero e raça na profissão e na teoria da arquitetura. Questões ligadas à relação entre o ambiente construído, orientação sexual e identidade de gênero, no entanto, permanecem particularmente pouco estudadas, talvez por causa de sua relativa invisibilidade e consequências discriminatórias menos claramente identificáveis; elas também são completamente negligenciadas pela teoria do design no mundo francófono. Este artigo corrige parcialmente a situação.
Conhecida antigamente como “ciclópica”, essa técnica se baseia na utilização de grandes blocos de pedra que, sobrepostos e ligados entre si, sem qualquer tipo de argamassa, permitiam materializar várias estruturas. As civilizações às quais se atribui o uso desta técnica são muito diversas e é possível vê-la aplicada a diferentes funções que vão desde a construção de muralhas defensivas até templos e tumbas. Em geral, esse tipo de sistema costuma estar associado a qualquer construção antiga que utilize grandes elementos de pedra, cujo aparelhamento é mais ou menos poligonal.
Embora os hologramas tenham sido uma possibilidade por décadas - o primeiro holograma foi desenvolvido no início dos anos 1960 após o desenvolvimento da tecnologia a laser - muitos ainda podem associá-los mais à ficção científica, o termo evocando imagens de dispositivos de super-heróis de alta tecnologia e naves espaciais no futuro distante. No entanto, à medida que nos aproximamos da realidade de um futuro hiper-tecnológico e uma variedade de indústrias - incluindo arquitetura e construção - começam a abraçar novas formas de tecnologia cada vez mais avançada, a holografia também tem a chance de remodelar completamente a maneira como conceitualizamos e arquitetura de experiência. Embora seja impossível prever exatamente como a tecnologia holográfica será usada no futuro, a seguir listamos vários exemplos de projetos existentes que usam hologramas e outros tipos de holografia para criar ambientes atmosféricos, cenas fantásticas e visualizações práticas. Esses exemplos vão além do uso de hologramas para visualizar estruturas e locais durante a fase de projeto; eles utilizam holografia para moldar o próprio espaço arquitetônico completo, alterando completamente a experiência sensorial e espacial de seu ambiente.
https://www.archdaily.com.br/br/963058/hologramas-como-eles-podem-impactar-o-espaco-arquitetonicoLilly Cao
O movimento maker é uma filosofia que gira em torno da atividade criativa do fazer, intrínseca ao ser humano, e que se dá através da utilização, adaptação e modificação de recursos existentes sem ajuda profissional (HATCH, 2013). Além disso, é baseada na cultura do “faça você mesmo”, sendo sua principal diferença a utilização de ferramentas digitais que facilitam e potencializam a colaboração, a documentação e o compartilhamento entre as pessoas. Desta forma os projetos ficam abertos e adaptáveis, qualquer pessoa pode acessar e modificar.
https://www.archdaily.com.br/br/963788/e-se-os-fab-labs-fossem-o-faca-voce-mesmo-da-arquiteturaRodrigo Gobatto de Moraes